Natural de Passeio Grande, São Tomé e Príncipe, reformado, 63 anos de idade, migrante há mais de 30... Na véspera do regresso ao seu país de origem, através do Programa de apoio ao Retorno Voluntário e à Reintegração (ARVoRE) da OIM, o Sr. Fernando conta como primeiro emigrou para Angola, onde viveu 18 anos com a mulher e os filhos, acabando depois por voltar para São Tomé, por motivos familiares.

No entanto, não conseguiu voltar a viver na sua cidade, que lhe parecia ainda mais pequena e sem oportunidades. Assim, fez as malas e partiu novamente, desta vez para Portugal, onde chegou em 2001, para ficar. “Nessa altura havia oportunidades de trabalho, tinha cá o meu irmão mais velho, que me acolheu, e também já tinha trabalhado com portugueses antes, em Angola”.

Topógrafo em São Tomé, camionista e motorista em Angola, viria a trabalhar na construção civil em Portugal, agarrando oportunidades como pintor e carpinteiro (função na qual já tinha alguma experiência), chegando também a trabalhar na separação de resíduos.
A vida sorria-lhe, “os patrões gostavam do meu trabalho, nunca passei fome, sempre consegui ter galinha na mesa”. Quando queria comprar outros bens, como foi o caso do televisor e do DVD, esperava pelo 13o mês.

Sempre viveu sozinho, confessando que sentiu falta da família e de ter uma mulher. “Cá as mulheres conseguem ganhar mais do que os homens, no trabalho doméstico, não querem homens com salário mínimo”. E a idade também conta, acrescenta o Sr. Fernando, que chegou a Portugal com quase 50 anos.

No entanto, o problema maior foi quando, em 2010, ficou doente. “Se não fosse a doença, ainda hoje estaria a trabalhar”. Numa consulta de rotina foi-lhe diagnosticado um problema de coração, em menos de um mês estava num bloco de operações.

“A partir desse momento tudo mudou: perdi o trabalho. Já trabalhava na empresa há 6 anos; fiquei com uma pensão de apenas 178 euros, por invalidez, e fiquei sem casa pois o meu irmão morreu nesse mesmo ano. Com uma renda de 150 euros, tive de recorrer ao apoio do Banco Alimentar.
E a Deus!” Foi esta situação que fez com que decidisse regressar ao país de origem. “Aqui, com 63 anos, não tenho sorte, os jovens talvez, mas eu já não”. No entanto, não é fácil voltar após tantos anos. E mais difícil é voltar de mãos vazias, principalmente porque “quem está lá pensa que quem volta da Europa tem a obrigação de levar mundos e fundos”. Em São Tomé tem quatro filhos, com quem foi mantendo o contacto, mas que não fazem ideia de tudo por que tem passado.

Para o Sr. Fernando, porém, “Portugal foi uma escola”, não se arrependendo de ter migrado para cá. “Não volto rico, mas volto com saúde, e isso é o mais importante”. De qualquer forma, diz, “em São Tomé quem tem família não passa fome e lá dá-se boleia; aqui quem não tiver dinheiro para o transporte não vai a lado algum”. Conclui com um sorriso, “a nossa terra é a nossa terra”.

Na véspera da viagem de regresso, o Sr. Fernando está confiante, conseguiu obter o apoio à Reintegração, enquadrado no Projecto ARVoRe, e diz que “com este negócio as coisas serão diferentes”. Irá aproveitar um espaço já existente, na praia, para fazer churrasco. “Os pescadores chegam sempre do mar com fome, acredito que não faltem clientes para frango no churrasco e cervejinha gelada”. E acrescenta, “a ajuda da OIM foi uma dádiva”. .
 


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